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11 Anos da Adega do Convento, Mafra

Há lugares que nascem com alma, outros que a herdam.

A Adega do Convento, no coração histórico de Mafra, é felizmente um caso raro em que ambas as verdades se cruzam. “Filha” direta da icónica Estrela do Mar, essa marisqueira que há décadas ilumina Ribamar com sabores do oceano, a Adega do Convento celebra agora onze anos de existência, maturada como o vinho e a carne que tão bem sabe servir.

Instalada num edifício centenário, cujas paredes parecem guardar ecos de outras eras, a Adega não se limita a alimentar, acolhe. Ali, a gastronomia portuguesa assume o seu esplendor tradicional, respeitando sazonalidades, produtos locais e, acima de tudo, a essência do sabor genuíno. É uma casa feita à moda antiga, mas com um olhar atento e contemporâneo sobre o prato.

Na minha recente passagem por Mafra, motivada por entusiásticos comentários de membros do grupo “Talvez Jantes“, a visita tornou-se inevitável.

A entrada fez-se sob o olhar cúmplice do Convento, mas foi a cozinha que verdadeiramente se impôs. Comecei por aquela que não poderia deixar de ser provada: a sopa rica do mar, herança direta da casa-mãe. Chegou fumegante e generosa, um verdadeiro altar ao mar.

Camarões suculentos, mexilhões robustos, delicadas lascas de lavagante e lagosta dançavam num caldo perfumado por ervas frescas, camarão desfeito, sapateira desfiada e sal marinho. Um prato que resume a costa portuguesa numa só colher.

Seguiu-se um clássico reinventado com mestria: bochechas de novilho estufadas em vinho tinto. A carne desfazia-se à menor resistência do garfo, prova do tempo, da paciência e do saber. O vinho, discreto mas presente, elevava os aromas e envolvia a carne num manto de sabor profundo. Os legumes que escolhi como acompanhamento revelaram-se frescos, bem tratados, e quebravam com elegância a untuosidade do prato.

Para finalizar, um folhado de maçã, aquecido e delicadamente crocante, servido com uma bola de gelado e uma redução de vinho do Porto que perfumava o prato e adoçava o palato. Uma sobremesa simples na ideia, mas sublime na execução, como deve ser.

A experiência não seria a mesma sem o toque humano. A equipa é de uma simpatia desarmante, com destaque merecido para o Hugo, que nos recebeu e guiou com um profissionalismo caloroso e sincero, da chegada à despedida.

Onze anos depois, a Adega do Convento prova que tradição e evolução podem coexistir à mesa. E que, em Mafra, entre as pedras do convento e o rumor do mar, há um restaurante onde a alma da cozinha portuguesa continua viva e bem servida

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