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Reality (2023)
Ontem, depois do jantar, liguei a aplicação da MAX à procura de algo fácil de ver.Acabei por tropeçar em Reality (2023), um filme curto, mas que de simples não tem nada. Imagine‑se um interrogatório contínuo de uma hora e vinte minutos. É exatamente isso que o filme propõe. A história retrata o interrogatório realizado pelo FBI a Reality Winner, ex‑tradutora da NSA, responsável pela fuga de documentos confidenciais sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016. Do ponto de vista emocional, é um filme pesado. Reality vê a sua casa invadida por uma equipa do FBI que mexe em tudo, vasculha cada canto, enquanto a tensão cresce minuto após minuto. O guião utiliza a transcrição real e integral do interrogatório, gravado em áudio no dia da detenção, o que confere ao filme uma crueza e um realismo perturbadores. Há uma tensão permanente que me deixou verdadeiramente ansioso. Gostei muito…
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Lisbon Noir
Foi um fim de semana fora.A ideia era simples: praia, dormir, descansar e comer bem. Na sexta‑feira, depois do jantar, procurei uma série para ver. Acabei por descobrir, na Prime Video, uma mini‑série de quatro episódios, inspirada na figura do serial‑killer português Diogo Alves. Diogo Alves ficou para a história por ter empurrado cerca de 70 pessoas do Aqueduto das Águas Livres. A série parte dessa memória sombria para construir uma nova narrativa: alguém parece venerar o assassino e seguir as suas pisadas. Tudo começa quando a polícia investiga o homicídio de um diplomata, atirado do Aqueduto das Águas Livres. À medida que a história avança, encontramos várias personagens que remetem para os clássicos do género: o polícia mal‑disposto mas competente, e a investigadora talentosa que não é respeitada pela própria classe. No elenco destacam‑se Pêpê Rapazote, Beatriz Godinho e Luís Filipe Eusébio, todos com boas prestações. O maior problema…
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Hard Labour o disco não oficial dos Men at Work
Sem muitas ideias sobre o que ouvir enquanto preparava uma entrevista, acabei por ser levado até a um disco ao vivo de uma banda australiana que marcou a minha adolescência. Os Men at Work fizeram parte de uma fase muito importante da minha vida. Lembro‑me de passar horas a ouvi‑los: tinha todos os discos em vinil e tocavam sempre aos altos berros. Os meus vizinhos deviam achar graça, porque nunca tive uma única queixa. Hard Labour é um álbum ao vivo bootleg (não oficial) da banda australiana Men at Work, lançado comercialmente em plataformas de streaming como o Spotify em fevereiro de 2019. O disco percorre a carreira da banda e é precisamente isso que valorizo nos álbuns ao vivo: mostram o verdadeiro valor dos músicos, sem grandes recursos de produção. As coisas são cruas, reais, genuínas.Ou sabes tocar e cantar, ou então não gravas um disco ao vivo. Hard…
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“A Breve Vida das Flores” de Valérie Perrin
Na hora de almoço conversava com uma colega que, de olhos a brilhar, falava desta obra de Valérie Perrin. Já tinha lido outro livro da autora, que me tinha deixado muito feliz, por isso foi de coração aberto que entrei em A Breve Vida das Flores. Não sabia bem ao que ia, mas bastaram as primeiras páginas para ficar imediatamente rendido. A narrativa é profundamente poética, apesar de contar uma história pesada, que aborda temas como a morte, o luto e a perda.O livro tornou‑se um verdadeiro sucesso comercial e, sempre que falo com quem já o leu, a opinião é unânime: A Breve Vida das Flores é um grande livro. A história gira em torno de Violette Toussaint, zeladora de um cemitério. Cuida dos túmulos, trata do seu jardim e acolhe os visitantes com chá, café e confidências, transformando a sua casa num refúgio para quem sofre. No enredo…
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Associação Ori Negritudes em Convergencia Espiralar
Não sabia bem ao que ia. Fui ao Teatro São Luís assistir a uma performance inesperada. A Associação Ori – Negritudes apresentou duas cenas do espetáculo Kabeca Ori, que fala de negritude, da diáspora e da urgência de dar voz ao que tantas vezes fica silenciado. As atrizes disparam palavras como tiros, diretas, cruas, cheias de significado. Confesso que não conhecia a companhia, mas gostei muito do que vi. Duas excelentes atrizes de Almada, com um projeto inovador e surpreendente. Não será compreendido ou apreciado por todos, mas quem as for ver regressa a casa a pensar, e a pensar muito, sobre tudo aquilo de que falam. Sem hesitações, sem pressa. E deixa marca.
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Fim dos Dias
No mês de fevereiro estive particularmente entretido com os canais TVCine. Tive um pequeno acidente de bicicleta que me deixou meio inativo e, por isso, acabei por passar mais tempo em casa a ler e a ver filmes. Admito que me cansei rápido, sou um verdadeiro bicho de rua, e estar fechado em casa não combina comigo. No sábado, cheguei tarde a casa, liguei a televisão no quarto e fui saltando de canal em canal até que parei no Cinemundo, onde estava a dar um filme de 1999 com o Arnold Schwarzenegger. Fim dos Dias conta uma história passada no final de 1999, em Nova Iorque, onde Jericho Cane tem de proteger uma jovem (interpretada por Robin Tunney) escolhida por Satanás (Gabriel Byrne) para conceber o Anticristo antes da entrada no novo milénio. O filme é repleto de ação, as sequências sucedem-se sem dar espaço para respirar. Mostra um Schwarzenegger…
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A Relíquia de Eça de Queirós
Quem sou eu para fazer juízos sobre a obra de Eça! Não tenho dúvidas de que é o maior escritor português de todos os tempos. No final do ano passado decidi comprar a obra completa, que me custou apenas 0,99 €. Comprei na aplicação Kobo e decidi mergulhar. Já vou no sexto livro e, para não me cansar do Eça, vou intercalando com outras leituras. Ontem terminei A Relíquia, escrito em 1887. O livro é narrado na primeira pessoa e acompanha a história do desgraçado Teodorico Raposo, que perde os pais muito cedo e vai viver para a casa de uma tia profundamente religiosa. O nosso “herói” vive uma dupla vida: em casa é o sobrinho exemplar, devoto e obediente à tia; na rua é um homem normal, entregue aos prazeres do amor e do “pecado”. O grande objetivo de Teodorico é herdar a fortuna da tia, e para isso…
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A Morte e a Donzela pela companhia de Teatro dos Aloés
Que sábado bom! Fui buscar as minhas tias, grandes fãs de teatro. Jantámos no muito badalado Maria Azeitona, na Amadora, e depois seguimos para o teatro. Os Recreios da Amadora acolhiam a companhia de teatro dos Aloés. Sala cheia num sábado à noite, ainda por cima com o Benfica a jogar em casa, o que mostra bem que há público para tudo. Quando me sentei, nem sabia ao certo o que ia ver. Mas, nos primeiros minutos, percebi que já conhecia a história: tinha visto o filme, que também tem adaptação para teatro. A Morte e a Donzela leva-nos a um Chile a sair de uma ditadura altamente repressiva, marcada pela tortura e pela total falta de respeito pela condição humana de quem ousava discordar da linha política. E, inevitavelmente, pensamos em Portugal, essa proximidade torna tudo ainda mais impactante. A história desenrola-se quando um alegado torturador surge como visita…
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O Arquiteto
Este fim de semana tropecei nesta série portuguesa chamada “O Arquiteto”. Já não me lembrava bem da história. Recordo-me de que, há muitos anos, trabalhava de madrugada na Rádio Energia. Deitava-me pelas oito da manhã e acordava tarde. Um dia, por volta das quatro da tarde, um amigo tocou à porta. Ainda meio ensonado, abri. Ele vinha com uma cassete VHS que me queria mostrar a todo o custo. Liguei a televisão, coloquei o vídeo a funcionar e comecei a ver. Fiquei mal disposto e quase não consegui continuar. As imagens eram perturbadoras. O chamado “arquiteto” abusava da sua posição de poder para manipular jovens vulneráveis. Um verdadeiro nojo, pela prepotência e exploração que transmitia. Lembro-me de sentir revolta perante a facilidade com que conseguia envolver quem precisava de ajuda ou estabilidade financeira. O escândalo rebentou na altura e, embora tenha perdido popularidade num primeiro momento, a verdade é que…