
“Anna nos trópicos” de Nilo Cruz
Estou tão farto da chuva e deste mau tempo.
Antes de sair, penso duas vezes, mas este sábado decidi ir aos Recreios da Amadora, onde habitualmente reside a Companhia de Teatro dos Aloés.
Nunca tinha ouvido falar de Nilo Cruz, mas, numa pesquisa rápida, percebi que é um dramaturgo da nova geração cubana.
No passado, existia a figura do leitor, alguém contratado para ler durante as horas de trabalho nas fábricas.
Acho esta ideia maravilhosa: muitos trabalhadores que nem sabiam ler acabavam por ter acesso às grandes obras da literatura. Tudo era usado para animar o ambiente, desde as notícias do dia até aos grandes clássicos.
Este espetáculo transporta-nos para uma fábrica em Tampa Bay, cidade situada na costa do Golfo do México, onde existe uma grande comunidade cubana.
A fábrica produz o famoso charuto cubano. O antigo leitor faleceu e é preciso contratar um novo.
Chega então à fábrica um novo leitor que se propõe ler aos trabalhadores Anna Karenina, de Tolstói.
A leitura do livro desperta nos operários uma nova consciência das suas próprias vidas – a necessidade de afeto, a busca do amor.
O texto levanta várias inquietações: a luta entre a modernização, que coloca postos de trabalho em risco, e a preservação do lado poético da produção artesanal de charutos.
Também há um conflito entre o progresso cultural, representado pela presença do leitor, e a escuridão de continuar sem esse guia.
O cenário é visualmente impressionante, e as transições de cena acontecem à vista de todos, tornando-se parte da própria ação.
A banda sonora é deliciosa – uma sonoridade tropical de bom gosto, cheia de swing.
São duas horas que passam num instante, num espetáculo dinâmico, mas que respeita os seus momentos de pausa e respiração.
Gostei muito. Não devem perder!

