“Crónica dos Bons Malandros” de Mário Zambujal
As férias têm-me dado tempo para ler muito mais. Por curiosidade, decidi revisitar Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal.
Já o tinha lido em miúdo, mas não me lembrava praticamente de nada. Apenas guardava uma vaga memória da adaptação cinematográfica.
Foi, por isso, com prazer e um sorriso nos lábios que mergulhei novamente nesta obra de Mário Zambujal.
É um livro profundamente divertido, escrito com enorme inteligência e um apurado sentido de humor.
Logo nas primeiras páginas, Zambujal apresenta-nos os seus “bons malandros”, personagens que, apesar da vida à margem da lei, têm muito pouco de verdadeiramente maus.
A história acompanha uma quadrilha de pequenos criminosos lisboetas contratada por um misterioso italiano para executar aquele que seria o maior assalto alguma vez planeado na capital: roubar a valiosa coleção de joias de René Lalique, exposta no Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.
O plano é um autêntico disparate, improvável do princípio ao fim, mas acaba, de forma inesperada, por resultar.
Apesar da sua condição de marginais, estas personagens estão longe de ser vilões. São humanas, cheias de contradições, leais entre si e, em muitos momentos, até revelam uma surpreendente integridade moral.
Zambujal procura recriar a linguagem popular e marginal da época, mas fá-lo com uma escrita que, por vezes, se torna quase poética.
Li este livro num só dia. Não é um romance longo e tem um ritmo envolvente que torna a leitura leve e muito agradável.
Publicado originalmente em 1980, é também um retrato de uma Lisboa que já desapareceu. Talvez por isso me tenha sabido tão bem regressar a estas páginas. Eu era ainda um miúdo quando o livro foi editado, e reconheci naquele ambiente ecos de uma cidade que ainda cheguei a conhecer.
Vale muito a pena reler Crónica dos Bons Malandros. E, para quem ainda não a conhece, vale certamente a pena descobri-la pela primeira vez.


