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Isabel Machado – D. Pedro, o regente visionário que o poder quis calar

Foi numa tarde quente de verão que conversamos com Isabel Machado.

É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, foi jornalista durante muitos anos, mas o que nos levou à conversa foi a sua nova obra «D. Pedro, o regente visionário que o poder quis calar»

Que livro é este?

É um romance histórico sobre uma das figuras mais interessantes da História de Portugal, sem qualquer exagero. O infante D. Pedro, conhecido como o das Sete Partidas, pelas viagens que fez na Europa, é um dos príncipes da Ínclita Geração, segundo filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre. Para mim, o mais brilhante de todos. Ele e a sua irmã, D. Isabel, de quem era muito próximo, e que foi duquesa de Borgonha.

É um homem muito inteligente, culto e de ideias muito determinadas que vai introduzir reformas importantes em Portugal quando se torna regente do seu pequeno sobrinho, D. Afonso V, depois da morte do rei D. Duarte, irmão de D. Pedro.

É uma época extraordinária para Portugal e o romance acompanha o infante D. Pedro desde a adolescência, através da relação com os pais e os irmãos, da conquista de Ceuta, onde é feito cavaleiro pela mão do rei, através da Europa, onde passou três anos nas principais cortes e como cruzado ao serviço do Imperador Segismundo.

Acompanhei o político e grande pensador que era, mas também o homem privado e o homem de família. D. Pedro era um homem sedutor, fisicamente atraente, alto e com tipo físico de inglês que, naturalmente, chamava a atenção das donzelas, mas escolhe a mulher com quem casa – uma absoluta raridade no século XV! – e estou convicta de que foi uma união de amor com D. Isabel de Urgel, descendente de reis de Aragão,  com quem teve sete filhos.

Tento contar o que fez como regente do reino, o muito que ambicionou para Portugal e as mudanças que introduziu.

Infelizmente, o infante D. Pedro é traído por membros muito próximos da sua família e morre na batalha de Alfarrobeira depois de um processo hediondo de perseguição e calúnias de que é vítima.

Neste romance, quis honrar a memória deste grande homem, brutalmente injustiçado e silenciado por interesses políticos, e dá-lo a conhecer melhor.

Qual a importância de D. Pedro para a história de Portugal? 

O infante D. Pedro era uma mente ambiciosa e extremamente lúcida, muito à frente do seu tempo. Defendia a importância da educação, da justiça e do enriquecimento de um reino através do comércio.

Assim, durante a sua regência são concluídas as famosas Ordenações Afonsinas, a primeira compilação das leis na História de Portugal, organizadas por Códigos. 

Defensor da qualificação dos homens que geriam o reino, fundou uma segunda Universidade, em Coimbra. Até então, os Estudos Gerais (estudos superiores) estavam apenas numa cidade e alternavam entre Lisboa e Coimbra. D. Pedro achava que não bastava. Infelizmente, quando é traído no final da regência, esse plano não avança com D. Afonso V.

O infante D. Pedro trava as expedições da guerra santa no norte de África, que havia anos gastavam recursos humanos e materiais a Portugal, apostando tudo na política de expansão ultramarina pela costa africana, com implantação e comércio. É ele, como regente, que consegue alcançar para Portugal o monopólio das navegações, guerra e comércio a sul do Cabo Bojador, uma conquista importantíssima no futuro dos Descobrimentos.

Dá uma educação esmerada ao sobrinho, D. Afonso V. Aposta ainda no desenvolvimento da Madeira e dos Açores e recupera o património do reino, muito degradado por falta de meios durante décadas.

@Teresa Aires, fotógrafa

Como era o Portugal da época?

Foi um período interessantíssimo. Era o início da segunda dinastia, fundada pelo seu pai, D. João I. Foi um rei notável, que garantiu a independência de Portugal em circunstâncias muito difíceis e contra uma boa parte da nobreza. O seu casamento com D. Filipa de Lencastre, uma princesa inglesa cultíssima e austera, tornou-se uma união de afecto e respeito e sonharam juntos criar os filhos com elevadíssimos padrões de cultura e de sentido de dever, para que a dinastia de Avis perdurase.

Os infantes – chegaram seis à idade adulta -, D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando eram muito diferentes entre si e exploro bastante as relações entre eles, as cumplicidades de uns, o choque com outros, as aproximações ou desencontros entre os irmãos. Este período não foi cor-de-rosa como nos contam nos bancos da escola.Tudo prometia ser perfeito, mas a realidade não foi essa. Depois da morte de D. João I, as coisas começam lentamente a degradar-se.

Há muitas convulsões, instabilidade, guerra civil, ameaça de invasões de Castela, traições.  

Como foi que D. Pedro chegou ao poder? 

O irmão mais velho do infante D. Pedro, o rei D. Duarte, morreu de peste. O seu filho mais velho, D. Afonso V, tinha apenas seis anos, era preciso um regente para governar até à maioridade do pequeno rei, aos catorze anos. A partir deste momento, as coisas começam a complicar-se muito porque D. Duarte – que, ao que parece era muito apaixonado e dominado pela mulher, D. Leonor de Aragão – deixa em testamento todo o poder à rainha. Seria a tutora do pequeno rei e a regente de Portugal. Esta decisão causa enorme instabilidade e começam as profundas divisões entre os que queriam D. Leonor como regente e os que defendiam que fosse o infante D. Pedro, o tio mais velho, a governar e a educar o rei porque se opunham ao poder todo nas mãos de uma mulher estrangeira, ainda por cima irmã dos mal afamados e quezilentos infantes de Aragão, que tinham poder em todos os tronos da Ibéria e que deram conta da paz em Castela durante décadas.

A rivalidade entre os dois cunhados é um período interessantíssimo e pouco conhecido e que exploro bastante no livro.

Correu mal a regência nas mãos de D. Leonor. O povo e os concelhos estavam maioritariamente do lado de D. Pedro, a nobreza bastante dividida, o clero também. Ainda se tentou uma regência partilhada entre os dois, mas a instabilidade crescia e D. Pedro acabou por ser aclamado regente em Lisboa e depois votado também em cortes. Mas a paz não dura. Começam aqui a ver-se bem quem são os inimigos de D. Pedro e que vão ter uma papel determinante no final da regência e em tudo o que acontece até à batalha de Alfarrobeira. 

Porque foi que a sua política terá incomodado o poder instituído?

A principal ocupação da nobreza era a guerra, de onde lhe vinha a riqueza e as honrarias. Na altura, era a guerra santa no norte de África que dominava os interesses da nobreza. O infante D. Pedro acabou com isso. Desde cedo, percebeu que essa opção só trazia esbanjamento do dinheiro e perda de vidas e de armamento e vai conduzir Portugal por outro caminho: o da exploração atlântica, que já tinha, de resto, começado há bastante tempo. 

Por outro lado, D. Pedro defendia a centralização do poder no rei, uma forma mais “moderna” de governo, opondo-se à distribuição do poder pela alta nobreza, pelos grandes senhores feudais que, muitas vezes, punham em causa o poder do próprio rei e se aliavam a Castela para obter ganhos para as suas linhagens. 

Onde andou a fazer investigação para esta obra? 

A pesquisa foi feita sobretudo em Portugal, especialmente na zona de Coimbra, D. Pedro foi duque de Coimbra, o primeiro duque de sempre na História de Portugal, juntamente com o seu irmão, o infante D. Henrique, que foi duque de Viseu.

Mas a pesquisa levou-me também para fora de Portugal porque o infante D. Pedro foi muito influenciado pelas viagens que fez e por tudo o que observou em algumas das cortes europeias mais avançadas do seu tempo. Fiz uma cuidada pesquisa em Inglaterra, onde acredito que ele foi muito influenciado por tudo o que viu na Universidade de Oxford, no sistema de justiça e também pelos valores da Ordem da Jarreteira com que foi agraciado pelo rei de Inglaterra, seu primo, uma honraria imensa e atribuída a muito poucos.

Também fiz pesquisa na Turquia, onde o infante D. Pedro não esteve, mas lutou contra o avanço do poder otomano ao lado do Imperador Segismundo. Em Itália e na Hungria tive o apoio das minhas filhas.

Como foi que se apaixonou por História? 

Desde a infância, através do meu pai, um apaixonado e profundo conhecedor de História.

Quais são as épocas que a fascinam mais?

A Idade Média, claro, mas também o século XIX porque é uma época incrível, que explica quase tudo o que se passou no século XX na Europa e no mundo. É também um tempo de luta pela liberdade, de avanços científicos, políticos e culturais. Quando escrevi o romance sobre Vitória de Inglaterra e as suas relações com Portugal, fiquei fascinada com tudo o que aconteceu e se alcançou no século XIX.

Fica alguma ligação emocional quando se escreve sobre alguém?

Claro que sim! Sobretudo durante a pesquisa e a escrita do livro. É uma ligação intensa com a personagem principal e também com algumas das outras, embora em menor escala. Durante muito tempo vivemos dentro da cabeça daquela pessoa, a pensar e a falar por ela. É uma ligação muito forte.

Para quem se destina este livro? 

Este livro destina-se a todos os portugueses que gostem de História e que não se satisfaçam com a versão mais ou menos oficial dos factos. O infante D. Pedro merecia um romance histórico há muito tempo. É uma figura extraordinária, que se tentou apagar em favor de outros nomes. Acho que há algumas verdades incómodas neste livro.

Um romance histórico, feito com muito rigor, um bom livro para ler neste verão quente.

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