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Entrevistas

Marina Pacheco a voz

A grande soprano Portuguesa Marina Pacheco esteve à conversa com o nosso site.

Simpática e muito talentosa. Pena ter de sair de Portugal para o seu reconhecimento público

Como foi que a música entrou na sua vida?

A música entrou na minha vida de forma natural. Em casa ouvia-se música constantemente e os mais variados estilos. No entanto predominava o Fado, a Canção Italiana e a Ópera. Desde cedo me habituei a acordar e a ouvir música, a ter o dia acompanhado por uma canção ou a adormecer a cantarolar alguma melodia.


Como começou a cantar?
Com o objectivo de que eu tivesse uma formação rica em diversas áreas, a minha mãe inscreveu-me, aos cinco anos, num coro infantil na cidade onde vivíamos – Coro dos Pequenos Cantores da Maia. Cantarolava em casa constantemente e essa foi uma opção para que essa aptidão não ficasse só dentro das quatro paredes. A partir daí foi saborear as oportunidades que iam surgindo, nomeadamente os inúmeros concertos com o Coro e representar Portugal no 37º Zecchino d’Oro, em Bolonha (Itália, 1994). Uma das experiências que, claramente, teve influência na minha vida artística e pessoal.


Quando entendeu que podia ser uma profissão?

Na realidade, percebi desde pequena que essa hipótese se colocava. Era igualmente apaixonada por jornalismo e psicologia, mas aos 17/18 anos foi muito claro que se não optasse por uma carreira musical, dificilmente me iria sentir completamente realizada com qualquer escolha profissional. Foi uma escolha com o coração.


Onde fez a sua formação?
Formei-me na ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo do Porto), onde conclui a minha Licenciatura e posteriormente fiz o Mestrado na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Em 2010 rumei à Bélgica, onde integrei o Estúdio de Ópera da Flandres (Gent). A formação não tem fim e é umas das particularidades mais fascinantes desta profissão: a aprendizagem contínua. Nesse sentido, mantenho aulas particulares e vou fazendo masterclasses que me permitam evoluir e ter sempre um “ouvido externo” para me aconselhar do ponto de vista técnico e musical.


Porquê uma ida para a Alemanha?
A Alemanha é um país de oportunidades. Há inúmeros teatros e oferta cultural. De todas as línguas principais que um cantor lírico tem de cantar, aquela que não dominava de todo para manter uma conversação era o alemão e conjugando estes dois factores, mais o feedback de outros artistas e a possibilidade de conseguir algumas “portas abertas”, conduziu-me a esta escolha.


Portugal não dá condições aos seus talentos? 

Portugal deu-me e continua a dar-me oportunidades. Acredito, porém, que são precisas medidas de apoio e um maior conhecimento da realidade do artista. Não é possível contemplar a nossa carreira com base em medidas gerais e sem uma análise daquilo que representa ser performer nas mais diversas áreas artísticas. 


Por onde passou até ao teatro onde esta atualmente?
Eu trabalho como freelancer até ao momento. Viajei e viajo imenso. É uma das partes mais bonitas desta profissão: conhecer o Mundo. Cantei em muitos países europeus e também África do Sul, Cabo Verde, Colômbia e Moçambique. Apresentei-me em pequenos e grandes teatros, em variadíssimas salas de espectáculo e em espaços improvisados, porque, cada vez mais, se procura fazer chegar esta Arte a todos os públicos.Não estou, neste momento, associada a nenhum teatro, mas não é uma hipótese colocada de parte, bem pelo contrário.


Canta em que línguas? 

Canto em variadíssimas línguas, sendo as mais comuns o italiano, francês, alemão, latim, inglês, português e espanhol. 


Como trabalha o sotaque? 

A nossa formação contempla todo o tipo de parâmetros que envolvem o Canto e isso não passa apenas pela técnica vocal e questões como a projecção e a musicalidade, mas também envolve todo o trabalho de detalhe. A dicção é algo muito importante e com ela pode vir em determinados casos a questão do sotaque. Na realidade, no canto opta-se sempre pela língua no seu estado mais neutro, sem se recorrer a nenhum colorido típico de alguma região. Contudo, houve uma produção onde eu cantei uma ópera com três personagens e duas delas impunham que defendesse o sotaque americano e o sotaque britânico. Esse trabalho foi desenvolvido com muita dedicação, ouvindo atentamente as nuances de cada sotaque e pedindo que pessoas de cada país me ouvissem e dessem o seu Feedback. Qualquer trabalho nosso deve ter sempre, como referi, um “ouvido externo”.


Como são feitas as audições?
As audições são normalmente muito semelhantes, o acesso a elas é que pode ser distinto. De modo geral há páginas na internet onde são anunciadas as mais variadas audições e há, por outro lado, as audições que os agentes, que trabalham connosco, conseguem diretamente com os teatros (e neste caso, não há outra forma de as conseguir, a não ser com alguém que nos represente).A audição em si pressupõe, geralmente, que o cantor escolha a primeira ária que quer cantar e a partir daí depende se o júri quer ouvir mais ou não, tendo em conta se procura algo específico ou não.Pode acontecer pedirem algum trabalho de interpretação em particular com orientação de um encenador ou outro tipo de interação e/ou conversa. Vai sempre depender do objectivo final da audição.


Há mais portugueses na sua situação?
Há imensos portugueses emigrados e a trabalharem seja como membros dos ensembles solistas dos teatros ou como freelancers. Por natureza, sinto que o português tem uma vontade enorme de tentar as oportunidades que se lhe apresentam e demonstrando sempre muito brio no seu trabalho.


Como é a distribuição de subsídio na Alemanha?
A Alemanha é um país que considera a cultura como bem essencial e por isso há diversos apoios para os artistas. Para além das entidades que consideram o apoio a artistas freelancers, há uma série de candidaturas que podem ser feitas no sentido de obter apoios para projectos individuais. Os teatros possuem, por seu lado, contratos fixos e o artista vê o seu trabalho assegurado.


O que esta a fazer neste momento?
Neste momento trabalho como freelancer, tenho diversos concertos agendados (que aguardam o desenvolver da situação pandémica; naturalmente muitos adiados) e vou desenvolvendo os meus projectos, porque sempre gostei deste lado mais pro-activo e que dá espaço à minha criatividade. Paralelamente vou sendo convidada para ministrar aulas/ masterclasses, algo que me preenche também, pois gosto muito de partilhar aquilo que me foi ensinado e que fui apreendendo ao longo da minha carreira. Como complemento, procuro sempre estudar sobre áreas paralelas que me acrescentam como ser humano e artista. Somos um todo e acredito piamente que uma formação completa, com uma visão ampla do mundo me permite e permitirá um desempenho mais consciente, mais real e mais detalhado em palco.


A marina é uma cantora altamente premiada, e nem só em Portugal, há algum significado por este reconhecimento?
Qualquer reconhecimento é sempre um estímulo a continuar a trabalhar, a investir na minha carreira e a confirmar que o caminho está a ser bem traçado. Lembra-me sempre da importância do trabalho árduo, de acreditar em mim e traz-me responsabilidade acrescida. Se por um lado é uma recompensa, é por outro um selo de qualidade e um estabelecer de um patamar e registo do qual não posso abstrair-me, nem desiludir. Trata-se de retribuir de forma grata aquilo que me foi concedido. Este reconhecimento significa apreço pelo meu percurso.

One Comment

  • Julieta Santos

    Muito orgulho nesta menina mulher 💗 desde pequena mostrou um grande talento para a música e fico feliz vê-la crescer e vencer, parabéns Marina, continua a brilhar e a encantar 😍 mantém sempre esse sorriso maravilhoso cheio de luz , beijinho grande 😘😘💗 Leta

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