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I love Campolide

Sem dúvida que é um dos bairros mais cativantes de Lisboa

Diz que quem lá mora fica com uma ligação para a vida!

Dois jornalistas, José Vieira Mendes e Jorge Lima Alves, decidiram pegar nas máquinas fotográficas, e no momento de pandemia fotografarem o bairro!

Dai nasceu um ato de amor ao bairro de Campolide, o livro “I love Campolide”-

Motivo para uma agradável conversa com um dos autores José Vieira Mendes

Afinal o que tem de especial Campolide? 

Em primeiro lugar é o bairro onde nasci e cresci.

É a “minha terra”! E onde o Jorge Lima Alves vive há 15 anos, onde nasceu um dos filhos dele e onde ganhou afinidades.

Depois é um bairro antigo, que está perto de tudo, (da Baixa, das saídas da cidade, ferroviária e rodoviária).

É um bairro de contrastes, entre o antigo e o moderno: dos edifícios novos do Alto de Campolide, ao ícone da cidade que é o Aqueduto das Águas Livres, tem muitos prédios pombalinos e muitos empreendimentos modelos que estão a nascer).

Campolide tem um mapeamento urbano muito diverso mas ao mesmo tempo muito interessante, que marca, ainda hoje, uma determinada estratificação social, que vem de baixo para cima, do vale para a colina: dos prédios sociais próximos da Avenida Ceuta, Quinta da Bela Flor, Cascalheira, Bairro da Liberdade, Estação de Campolide, Tarujo, onde vivem os mais pobres; o Bairro da Calçada dos Mestres, as ruas paralelas junto à Rua Vitor Bastos, para a classe média até ao Alto de Campolide onde vivem os mais abastados.

Enfim, com a Rua de Campolide que atravessa o Bairro ao meio como se fosse um serpentina esticada…. é um bairro popular muito vivo (que já foi mais destas duas coisas), que mantêm características únicas, em relação a outros bairros de Lisboa. Por isso não entendo porque não têm um outro estatuto até do ponto de vista imobiliário, cultural e social. Não tem, por exemplo, sequer uma livraria onde possamos vender o nosso livro.

Não tem um jardim ou uma praça central arborizada…é um bairro pouco uniforme…falta ali qualquer coisa, mas ao mesmo tempo, mantém aquele ar de ‘aldeia (dentro) da cidade’. 

Nascer em Campolide deixa uma marca para a vida?

Sim, deixa uma marca para a vida, porque tive o privilégio de ter nascido num bairro onde convivi com todo o tipo de pessoas, dos mais privilegiados aos mais pobres. Isso tornou-me um tipo com uma boa formação cívica e sobretudo com grande consciência social.

Havia de tudo e todos em miúdos brincávamos e convivíamos na rua, na Igreja de Campolide, nos Escuteiros ou no Judo Clube de Portugal. Ou nas sessões duplas do velho Campolide Cinema, nas matinés de fim-de-semana, com os filmes de cowboys, comédias,  kung fu e grandes aventuras ou pepluns.

Foi lá que vi pela primeira vez o ‘Lawrence da Arábia’ e os filmes do Bruce Lee, por exemplo.

Como define o Campolidense? 

Falo por mim… um eterno ‘puto’ de bairro, que apesar da educação, formação académica e de tudo o que teve acesso nesta vida….continua a ter aquele lado malandreco, que ganhou a brincar na rua com outros putos das mais diversas origens e estratos sociais…

I Love Campolide. Que livro é este? 

É um mapeamento fotográfico do bairro feito por dois olhares, durante os passeios que fizemos (em separado), durante os dois períodos de confinamento.

É também uma forma de homenagear um bairro um bocadinho esquecido e que merecia um pouco mais de visibilidade.

Para mim também foi uma forma de revistar as minhas memórias dos meus lugares da infância e adolescência, uma forma de homenagear os meus familiares que já partiram (os meus avós, os meus pais, o meu irmão), que a primeira vaga (os meus avós), chegou a Campolide há praticamente 100 anos.

Não é um acto político ou de denúncia do que quer que seja é apenas uma simbólica manifestação artística, um acto de cidadania e de preocupação por um lugar que nos é querido e temos afinidades. 

O livro foi feito em parceria com Jorge Lima Alves, como se conheceram? 

Nós somos amigos há muitos anos. Trabalhamos juntos como jornalistas no Expresso no início dos anos 90 e com o Jorge Lima Alves, que era o meu ‘chefe’, na altura aprendi muitas coisas, sobre jornalismo e também sobre fotografia. O Jorge Lima Alves foi um dos meus ‘mestres’ na vida!

Ele vive em Campolide? 

Sim, o Jorge Lima Alves vive em Campolide há 15 anos, mas como já disse não foi lá que nos conhecemos, nem nos cruzamos no bairro.

Ele foi para lá viver porque penso que gostou do bairro e do apartamento que tem uma vista espantosa para o Monsanto e uns fabulosos por-do-sol. Eu, apesar dos meus pais terem continuado a viver lá, saí aos 25 anos (tenho 61) e fui mesmo ali para o lado. Primeiro vivi nas Amoreiras (na Rua D. João V) e depois em Campo de Ourique, mesmo ao pé da escola das minhas filhas.

Mas obviamente continuei a ir a Campolide visitar os meus pais com frequência (até eles falecerem) porque estava ali muito perto e fui claro observando a evolução e as mudanças no Bairro. 

Qual o critério de escolha das fotografias? 

O critério foi simples: as fotos foram feitas em separado, só a posteriori, percebemos que estávamos a fazer a mesma coisa e combinamos fazer o livro.

A ideia foi o Jorge escolher as minhas fotografias e eu as fotografias dele.

E na verdade, no livro as fotografias dialogam de uma forma bastante harmoniosa. O Jorge teve isso em conta já que foi ele que paginou o livro.

Que dimensão ganhou o bairro com o confinamento?

Que queres dizer exactamente com ‘dimensão’?

Bom, como aconteceu nos dois confinamentos da primavera de 2020 e o inverno 2021, quando estávamos mais apertados em relação à pandemia, as ruas estavam praticamente vazias e isso é visível nas fotografias ou então ver as pessoas com máscaras, sobretudo idosos e sós, que são uma boa parte da população do bairro, que mesmo correndo alguns riscos, tinham que ir às compras, ao supermercado….enfim os nossos ‘passeios higiénicos’ (odeio este nome!!!) cada um por sua conta, também tornou possível um olhar mais profundo para a dinâmica da malha urbana do Bairro e dos edifícios e tirar partido dessas formas, numa perspectiva nostálgica, mas sobretudo artística.  

Há duas Campolides? Uma mais recente e outra mais moderna?  

Campolide é só um e é único. Há claro diferenças de tempo que estão bem definidas na malha urbana, aliás do tempo do Marquês de Pombal, até aos novos empreendimentos como a Nova Campolide ou os que estão a nascer que parecem cogumelos; aos poucos dá a ideia também de uma população que se renova, agora como muitas famílias francesas aproveitando a proximidade do Liceu Francês e atraídos pelo charme um pouco decadente do Bairro.

Onde comer bem em Campolide?

Não vou muitas vezes comer a Campolide, aliás não sou grande gourmet. Ia mais quando os meus pais estavam vivos. Mas o frango assado da Valenciana é imbatível e o melhor do mundo….desde que eu era criança….e quando a gente passa pelo Alto de Campolide, há sempre aquele cheirinho convidativo para comer ali ou então levar para casa…mas há também outros símbolos gastronômicos campolidenses que me recordo, como, o KateKero, o Cantinho do Alfredo, A Tasca do Lagarto….e perto da antiga casa dos meus pais O Petisca e A Mourouhense do Senhor Manuel, que tem melhor sopa da Avozinha (feijão com hortaliça), as melhores batatas fritas e omeletes do mundo. Falei claro dos mais acessíveis e que conheço depois sei que já há comida japonesa, indiana e claro bons e afamados restaurantes. Mas nunca fui a nenhum destes últimos… 

Para quem se destina este livro? 

Um livro de fotografia não é um livro de leitura, embora tenha uns textos introdutórios e as nossas intenções. Pretende ser uma pequena obra de arte e registo de memórias de um tempo e de um lugar, num momento algo extraordinário como foi o das quarentenas e da pandemia, uma memória futura que se destina a todos, aos moradores do bairro e a todas pessoas que se interessam pela fotografia. 

Uma memória fotográfica para guardar!

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